sábado, 31 de janeiro de 2009

A degola - Parte I

Imagem DilerMartins

Parte I

A prática da degola de prisioneiros não foi rara entre os contendores na Revolução Federalista de 1893, no Sul do Brasil. Do ponto de vista militar a degola foi a forma encontrada para encarar o fato de que as forças em combate não tinham meios para manter prisioneiros, devido ao estado de penúria de ambos os lados, era um maneira rápida de execução e poupava a escassa munição. Há que se ter presente a natureza dos homens que lutaram nesta guerra; indivíduos rudes, acostumados a vida no campo, a caça e ao abate de animais, o que, é claro, não justifica a selvageria.
De um lado os maragatos, partidários de Gaspar Silveira Martins, comandados por João Nunes da Silva Tavares, o Joca Tavares, e pelo coronel caudilho Gumercindo Saraiva, defendiam a revisão constitucional, o sistema parlamentarista e o fortalecimento do Brasil como União Federativa. Em confronto, os Pica-paus, partidários de Júlio de Castilho que defendia o sistema presidencialista e os princípios camtiano positivista de “pequenas pátrias”, que inspirara a constituição Rio-grandense de 1891.
Maragatos e Pica-paus, apelidos pejorativos trocados pelas facções: O apelido Pica-pau veio das listas brancas nos chapéus usados pelos militares que apoiavam Júlio de Castilho, que segundo os revolucionários, assemelhavam-se a um tipo de pica-pau existente no sul do Brasil. Já o apelido Maragato tentava fazer uma ligação dos revolucionários, com um povo, segundo alguns, de pouco valor, vagabundos, denominados Maragatos que viviam na da localidade de Maragateria, na Espanha, e que seriam os colonizadores do local, no Uruguai , de onde partira o piquete de Gumercindo Saraiva.
Zefa sabia que o marido Honófre, era homem da confiança do Capitão Julião e que sempre o acompanhava nas escaramuças naquela maldita guerra de guerrilhas, saiam por dois três dias, uma semana no máximo, e voltavam.
Honófre vinha com o olhar distante, enfastiado, calado, cansado, parecia até doente. “ - Deve ser pelos horrores da guerra.” Pensava Zefa … Depois voltava ao normal, mas não fazia nenhum comentário sobre o que se passava. A vida corria como antes, até a próxima saída, cada um ocupava-se de suas rotinas, não fosse pelos cavalos sempre ensilhados e pelos esconderijos preparados para as mulheres e crianças, nem pareceria que havia um guerra em andamento, tinha-se a sensação de eram várias guerras, que volta e meia, uma vinha quebrava seu sossego cotidiano e lá se iam os homens novamente. Depois voltavam e voltava o silêncio do marido.
Não fosse pela língua das lavadeiras ela jamais saberia da morte de alguns desafetos do capitão, tão pouco perceberia que não haviam prisioneiros, mas afinal o capitão era gente do governo, grande proprietário e naquelas redondezas todos lhe deviam obediência e respeito.
Naquele dia, enquanto voltava do rio com a roupa lavada, Zefa sentia as pernas frouxas, por várias vezes pensou que cairia, as revelações desta manhã tinham sido terríveis: As outras mulheres, contaram-lhe que cada piquete, além do comandante e dos peões transformados em soldados, também tinha um carrasco, que os prisioneiros eram executados ajoelhados, de mãos e pés amarados, tendo a cabeça puxada para trás, eram degolados de orelha a orelha. – Colocam a gravata colorada nos maragatos. Disse uma enquanto ria. - Os que tentam fugir são castrados antes de receberem a colorada. Falou outra. – Dizem que até fazem corrida de degolados. Informou uma terceira.
Finalmente Almira abriu sua maldita boca desdentada e falou : - Não se preocupe Zefa, ficaras bem, afinal o teu marido é o degolador no piquete do capitão!
Continua...

2 comentários:

Karina disse...

Olá, Dilermano!
Passei pra conhecer o seu blog, muito interessante, por sinal... E também pra agradecer as visitas e o carinho dedicado às postagens do MafaldaCrescida.
Um beijo bem grande e tudo de bom!

Francisco Sobreira disse...

É, agora consegui acessar. Tomara que não haja mais problema. Parabéns pela centésima postagem (agora a de número 101). Quanto ao texto, como é dividido em partes, acho melhor me manifestar sobre ele no final. Por fim, amanhã (terça), haverá nova postagem no Luzes. Um grande abraço.