terça-feira, 4 de novembro de 2008

Canção dos Homens

Foto de Dânia Borio


Que quando chegar do trabalho ela largue por um instante o que estiver fazendo - filho, panela ou computador - e venha me dar um beijo como os de antigamente. Que quando nos sentarmos à mesa para jantar ela não desfie a ladainha dos seus dissabores domésticos. E se for uma profissional, trabalhar fora,que divida comigo o tempo de comentarmos nosso dia.Que se estiver cansado demais para fazer amor, ela não ironize nem diga que "até que durou muito" o meu desejo ou potência.Que quando quero fazer amor ela não se recuse demasiadas vezes, nem fique impaciente ou rígida, mas cálida como foi anos atrás.Que não tire nosso bebê dos meus braçosdizendo que homem não tem jeito pra isso, ou que não sei segurar a cabecinha dele,mas me ensine docemente se eu não souber.Que ela nunca se interponha entre mim e as crianças, mas sirva de ponte entre nós quando me distancio ou me distraio demais.Que ela não me humilhe porque estou ficando calvo ou barrigudo, nem comente nossas intimidades com as amigas, como tantas mulheres fazem.Que quando conto uma piada para ela ou na frente de outros, ela não faça um gesto de enfado dizendo "Essa você já me contou umas mil vezes".Que ela consiga perceber quando estou preocupado com trabalho, e seja calmamente carinhosa, sem me pressionar para relatar tudo, nem suspeitar de que já não gosto dela.Que quando precisar ficar um pouco quieto ela não insista o tempo todo para para que eu fale ou a escute, como se silêncio fosse falta de amor.Que quando estou com pouco dinheiroela não me acuse de ter desperdiçadocom bobagens em lugar de prover minha família.Que quando eu saio para o trabalho de manhã ela se despeça com alegria, sabendo que mesmo de longe eu continuo pensando nela. Que quando estou trabalhando ela não telefone a toda horapara cobrar alguma coisa que esqueci de fazer ou não tive tempo. Que não se insinue com minha secretária ou colega para descobrir se tenho amante.Que com ela eu também possa ter momentos de fraqueza e de ternura, me desarmar, me desnudar de alma,sem medo de ser criticado ou censurado:que ela seja minha parceira, não minha dependente nem meu juiz.Que cuide um pouco de mim como minha mulher, mas não como se eu fosse uma criança tola e ela a mãe, a mãe onipotente, que não me transforme em seu filho.Que mesmo com o tempo, os trabalhos, os sofrimentos e o peso do cotidiano, ela não perca o jeito terno e divertido que tanto me encantou quando a vi pela primeira vez.Que eu não sinta que me tornei desinteressante ou banal para ela, como se só os filhos e as vizinhas merecessem sua atenção e alegria.E que se erro, falho, esqueço, me distancio, me fecho demais, ou a machuco consciente ou inconscientemente, Ela saiba me chamar de volta com aquela ternura que só nela eu descobri, e desejei que não se perdesse nunca, mas me contagiasse e me tornasse mais feliz,menos solitário, e muito mais humano.(Lya Luft, em "Pensar é Transgredir")

Um comentário:

Vanessa disse...

Oi, eu só li um livro da Lia Luft ( Perdas e danos) agora vou pegar este que vc citou no post. Lindo texto assim como o da mulher . Parbéns pelo post.