segunda-feira, 25 de julho de 2011

Pauta atropelada



Estava querendo escrever sobre a Lei 12.403/2011, em vigor desde o último dia cinco, cuja aplicação, segundo o Desembargador Fausto De Sanctis, inviabiliza a prisão no país;



As Prisões em Flagrante e Preventiva, somente ocorrerão em casos raríssimos.


Penso no duplo resultado da aplicação da norma: De um lado teremos sobra de vagas nas prisões e de outro, andar pelas ruas será uma verdadeira aventura.


Também estava querendo escrever sobre a Amy Winehouse, fiquei no lamento...Lamento muito, pobre menina branca de voz negra, lamento muito...


Fui atropelado por um email recebido do amigo Vano, um alagoano porreta, a crônica de Sheila Raposo reúne tudo o que sempre pensei do nordeste brasileiro e muito mais, é uma verdadeira declaração de amor à querida e sofrida terra nordestina. Fui atrás, encontrei a autora lá no seu blog Flor Menina, pedi autorização, recebi e compartilho o texto que, segundo Sheila, conta mais de quinze anos:




A vergonha que não tenho de ser nordestina
por Sheila Raposo




Cultivado entre os cascalhos do chão seco e as cercas de aveloz que se perdem no horizonte, cresceu, forte e robusto, o meu orgulho de pertencer a esse pedaço de terra chamado Nordeste.

Sou nordestina. Nasci e me criei no coração do Cariri paraibano, correndo de boi brabo, brincando com boneca de pano, comendo goiaba do pé e despertando com o primeiro canto do galo para, ainda com os olhos tapados de remela, desabar pr’o curral e esperar, pacientemente, o vaqueiro encher o meu copo de leite, morninho e espumante, direto das tetas da vaca para o meu bucho.

Sou nordestina. Falo oxente, vote, danou-se. Vige, credo, Jesus-Maria-José! Proseio numa língua ligeira, que engole sílabas e atropela a ortoépia das palavras. O meu falar é o meu mais fiel retrato. Os amigos acham engraçado e dizem sempre que eu “saí do mato, mas o mato não saiu de mim”. Não saiu mesmo! E, olhe: acho que não vai sair é nunca!

Sou nordestina. Lambo os beiços quando me deparo com uma mesa farta, atarracada de comida. Pirão, arroz-de-festa, galinha de capoeira, feijão de arranca com toucinho, buchada, carne de sol... E mais uma ruma de comida boa, daquelas que quando a gente termina de engolir o suor já está pingando dos quatro cantos. E depois ainda me sirvo de um bom pedaço de rapadura ou uma cumbuca de doce de mamão, que é pra adoçar a língua. No outro dia, de manhãzinha, me esbaldo na coalhada, no cuscuz, na tapioca, no queijo de coalho, no bolo de mandioca, na tigela de umbuzada, na urêa de pau com café torrado em casa!

Sou nordestina. Choro quando escuto a voz de Luiz Gonzaga ecoar no teatro de minhas memórias. De suas músicas guardo as mais belas recordações. As paisagens, os bichos, os personagens, a fé e a indignação com que ele costurava as suas cantigas, e que também são minhas, estavam (e estão) presentes em todos os meus momentos, pois foi em sua obra que se firmou a minha identidade cultural.

Sou nordestina. Me emociono quando assisto a uma procissão e observo aqueles rostos sofridos, curtidos de sol do meu povo. Tudo é belo neste ritual. A ladainha, o cheiro de incenso. Os pés descalços, o véu sobre a cabeça, o terço entre os dedos. O som dos sinos repicando na torre da igreja. A grandeza de uma fé que não se abala.

Sou nordestina. Gosto de me lascar numa farra boa, ao som do xote ou do baião. Sacolejo e me pergunto: pra quê mais instrumento nesse grupo além da sanfona, do triangulo e da zabumba? No máximo, um pandeiro ou uma rabeca. Mas dançar ao som desse trio já é bom demais. E fico nesse rela-bucho até o dia amanhecer, sem ver o tempo passar e tampouco sentir os quartos se arriando, as canelas se tremelicando, o espinhaço se quebrando e os pés se queimando em brasa. Ô, negocio bom!

Sou nordestina. Admiro e me emociono com a minha arte, com o improviso do poeta popular, com a beleza da banda de pífanos, com o colorido do pastoril, com a pegada forte do côco-de-roda, com a alegria da quadrilha junina. O artista nordestino é um herói, e nos cordéis do tempo se registra a sua história.

Sou nordestina. E não existe música mais bonita para meus ouvidos do que a tocada por São Pedro, quando ele se invoca e mete a mãozona nas zabumbas lá do céu, fazendo uma trovoada bonita que se alastra pelo Sertão, clareando o mundo e inundando de esperança o coração do matuto. A chuva é bendita.

Sou nordestina. Sou apaixonada pela minha terra, pela minha cultura, pelos meus costumes, pela minha arte, pela minha gente. Só não sou apaixonada por uma pequena parcela dessa mesma gente que se enche de poderes e promete resolver os problemas de seu povo, mentindo, enganando, ludibriando, apostando no analfabetismo de quem lhe pôs no poder, tirando proveito da seca e da miséria para continuar enchendo os próprios bolsos de dinheiro.

Mas, apesar de tudo, eu ainda sou nordestina, e tenho orgulho disso. Não me envergonho da minha história, não disfarço o meu sotaque, não escondo as minhas origens. Eu sou tudo o que escrevi, sou a dor e a alegria dessa terra. E tenho pena, muita pena, dos tantos nordestinos que vejo por aí, imitando chiados e fechando vogais, envergonhados de sua nordestinidade.

Para eles, ofereço estas linhas.

3 comentários:

✿ chica disse...

Adorei o texto da Sheila.Fui lá!

E adorei te ver de volta! Que férias longas!!!abração,chica

Dessa Vanin disse...

muito interessante a gente preservar as origens....não ter vergonha de de nada nem tão pouco tentar mudar aquilo que é cultura de um povo...abraços

Max Coutinho disse...

Diler!!!!

Voltaste! Meu amigo, folgo em ver que mudaste de template: agora já posso acedê-lo mesmo a partir do Chrome!! Obrigada :D.

Que decreto de lei perigoso! Meu Deus...não sei se o PT está a fazer assim tanto bem ao Brasil, não.
Quanto a Amy Winehouse: também fiquei triste com a notícia da sua morte. O mundo ficou com um défice no campo da arte musical, sem dúvida alguma. Deus tenha a sua alma.

Nordeste: amo a maneira como os nordestinos falam e a sua comida também não é má (quando não inclui porco, claro).

Diler, fico super feliz por teres voltado à blogosfera :D.

Um abração