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sábado, 18 de dezembro de 2010

Tatoo



Pauta para Palavras Mil - 37ª Edição


Foto daqui


Era Assistente Social do Município, de família católica, sempre fora uma cristã devotada, o amor fraterno como vocação, cultivado desde cedo, levou-a naturalmente, a escolha daquela profissão; eram os pequenos, os pobres, e os marginalizados, o grande interesse da sua vida, sua missão.


Hoje fazia um ano que no evento de entrega dos brinquedos para as crianças e das cestas de natal, na Vila Que Caiu do Céu, sua vida tinha ganhado um novo rumo:


Ele chegara pilotando sua moto vermelha com reboque da mesma cor e com chamas pintadas, do lado, em degrade, formando com suas tatuagens, um todo ao mesmo tempo harmônico e desastroso, na opinião dela que sempre tinha uma atitude discreta nessas ocasiões. Para completar a buzina imitando a risada do Papai Noel: Ho, ho, ho! Ho, ho, ho! Logo a criançada cercara a moto e o rapaz começara a distribuição de brinquedos; bolas, carrinhos, bonecas, casinhas, pipas, surgiam como que por encanto, de dentro do reboque, transformado em saco de brinquedos...


Aproximara-se visivelmente contrariada, afinal o estranho roubara a cena, bagunçara o evento que lhe custara meses de preparação, por sorte o Secretário, seu chefe, não aparecera, mas à medida que chegou perto, percebera mais que uma moto vermelha e um corpo tatuado; ele tinha amor no olhar, tratava os pequenos com carinho, brincava com eles. Jogara bola, soltara pipa, dera voltinhas na moto com a molecada.


Ela encantara-se...


- Um ano hoje... Ele disse.


- Um ano, querido. Ela respondeu sorrindo.


O casal de tatuados, que acabara de chegar com sua moto vermelha, para mais um evento, agora era igual na essência e na aparência e foi cercado pela criançada.




...Quero ficar no teu corpo

Feito tatuagem
Que é prá te dar coragem
Prá seguir viagem
Quando a noite vem...
Composição: Chico Buarque - Ruy Guerra

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

35ª Edição

Pauta para Palavras Mil

 


Foto retirada do GettyImages
  
Femismo







A Delegada invadiu o barraco e assistiu mais um episódio da tragédia quotidiana;


a mulher humilhada, ferida e ensanguentada, jazia no chão imundo, subjugada pelo marido que lhe apontava uma arma e gritava: Quer morrer vadia? Quer morrer? Vai morrer agora sua cadela!


A surpresa, a rapidez e a precisão do golpe o colocaram por terra, um pé calçando sapato de camurça pisou seu punho imobilizando a mão que empunhava a arma e ele sentiu no rosto a fria rigidez do aço da pistola de sua oponente: - Quieto! Ela ordenou com voz firme.


Ele fechou os olhos e, em segundos, fez uma avaliação: - Perdi, vou morrer nas mãos de uma mulher! Tão logo eu que fui o dono de tantas cachorras, que dei porrada em tantas vagabundas, que sempre tive uma Amélia, vou morrer nas mãos duma mulherzinha metida a macho. Só pode ser castigo! Mas eu já sabia; eram muitas mulheres se metendo em “coisa de homem”, dirigindo táxi, caminhões e até ônibus... Mulher chefe, gerente, empresária, agora temos até mulher presidente, ou presidenta, sei lá! Pior, mulher policia! Tinha que acabar assim... – Conformado abriu os olhos devagar, para enfrentar a morte...


Nova surpresa, o olhar dela não tinha morte, nem ódio, tão pouco amor ou carinho, era um olhar profissional: - Quieto! - Repetiu. – Mãos para trás, “Você tem o direito de ficar calado, caso decida falar, tudo o que disser poderá ser usado contra você”!


Algemado foi conduzido à Delegacia da Mulher. – Enquadra na Maria da Penha.


- Disse a Delegada à escrivã de plantão.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

33ª Edição

Pauta para Palavras Mil


Foto retirada do site Olhares


O queimador





A casa da minha bisavó tinha muitos mistérios, me assustava e quando eu fazia alguma pergunta às primas, elas apenas riam debochadas... Sempre havia ruídos noturnos, mas aquela parecia uma noite especial:
O uivo dos ventos, a voz de trapos rasgados das corujas, a areia fustigando o telhado, o portão do celeiro que batia, dando ritmo à sinistra orquestra, os relinchos e mugidos ocasionais, pareciam mais freqüentes do que de costume, até o galo ameaçou cantar antes da hora...
De repente ouvi vozes:
- Aonde você vai? Perguntou o bisavô com sua voz rouca.
- Já volto, vá dormir... Respondeu minha Bisa. Desceu a escada, iluminando o caminho apenas com a trêmula luz de uma lamparina que tingia de alaranjado sua camisola branca, abriu a porta, o vento apagou a chama, a Bisa saiu para a noite...
Corri para a janela do quarto e pude vê-la, sua camisola agora estava tingida pelo azul da lua cheia... Mais parecia um fantasma esgueirando-se para as sombras, desapareceu... Tenho certeza de ouvi-la gritar: “Quem é e o que quer? Quem é e o que quer? Quem é e o que quer?” Três vezes! Estava falando com as almas penadas... O frio e o medo tomaram conta do meu corpo, adormeci sem ouvir a resposta...
O café da manhã transcorreu em silêncio, apenas o queimador com sua vela nova, despontando das demais, parecia me dizer; sei, mas não vou contar...
Alguma alma pediu luz, pensei.
Como se adivinhasse a Bisa sorriu, amiudou os olhos e franziu os lábios arremedando um beijo, tocou de leve, minha mão e murmurou algo como, tu és uma de nós...

.

sábado, 16 de outubro de 2010

32ª Edição

Pauta para Palavras Mil
Imagem daqui.






Salto 15




- Pare com isso menina! Você vai acabar deformando meus sapatos ou machucando um pé... Repetiu a mãe que finalmente, convencida, concordou em fotografar a aspirante à modelo.
Gostava de segurar a foto quando tinha saudades da mãe que já partira, aquele momento era uma marca do amor que sempre as uniu... Limpou o porta-retratos com a parte interna do punho forrada pela barra da camiseta, retirando um pó que não existia, num gesto de quem esta querendo retirar a poeira da própria vida... Esticou o braço e deu uma última olhada, fingindo ser um mestre pintor que admira sua obra prima, suspirou e finalmente recolocou a foto na estante...
Aquela não era uma simples fotografia, não eram apenas os belos momentos vividos com a mãe na infância, não era só recordação, era muito mais; representava a primeira vez em que finalmente, conseguira se equilibrar sobre os saltos, seu primeiro desfile! O primeiro de muitos da carreira precoce e vitoriosa. Carregou a foto por onde andou; Paris, Roma, NY... – É meu talismã, me traz sorte. Costumava dizer. Até que começaram as dores na panturrilha. Micro-varizes foi o diagnóstico. O aviso do corpo não a retirou das passarelas, suportando a dor ou entupindo-se de analgésicos, continuou trabalhando.
Aconteceu o desastre, torceu o tornozelo e caiu do salto agulha de mais de 12 centímetros.
Veio a cirurgia o repouso e fisioterapia, meses de inatividade...
Ajeitou mais uma vez a foto na estante e saiu, batendo a porta do apartamento, desceu para o calçadão. Caminhava lentamente, odiando as malditas rasteirinhas que calçava...
-Me dá um autógrafo? Perguntou a menina.
- Claro! Repondeu sorrindo.
Assinou o caderninho na ponta dos pés, como se usasse um par dos temíveis saltos 15 tipo agulha!
Depois saiu, rumo ao consultório do fisioterapeuta, hoje seria sua última sessão.






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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A Estréia




Projeto Palavras Mil
Foto daqui


- Quarta à tarde mamãe tem aula de pintura, vá estudar na minha casa... Dissera.
Ele veio. Colocaram os livros sobre a mesa da sala, ela o pegou pela mão e levou para o quarto, comeram o chocolate que ele trazia e depois se beijaram demoradamente. Não foi o mesmo beijo “sabor de chocolate compartilhado” de que tanto gostava e com o qual estava acostumada. Foi melhor; doce, quente e profundo como nunca antes. Lembrou as palavras de uma amiga: “Você vai sentir calores e sabores...” Lembrou também da avó: “No meu tempo, beijo só depois de casado!” Afastou aqueles pensamentos e foi em frente: Enquanto se beijavam as mãos dele passeavam por seu corpo, como as mãos de um pianista em busca de acordes perfeitos, em troca ela apenas soltava suspiros dissonantes. Pensou na Cida, a faxineira da casa, que suspirava sem o menor pudor, pelos bonitões da novela das sete. Irritou-se com sua falta de jeito e lamentou o tempo perdido na leitura de tantos manuais de sexualidade que agora se revelavam inúteis. Resolveu atacar: Segurou a cabeça dele com ambas as mãos e o beijou com toda sua força... Foi pior: Serviu apenas para que ele empreendesse carícias mais ousadas. Conformada deixou-se levar, afinal meninos parece que já nascem sabendo e ela estava cansada de ser chamada de A Invicta. Será que ele tinha preservativo? Não podia perguntar... Mas também não queria ser mais uma mãe adolescente... De onde ele tirava tanta prática? Teria tido aulas com alguma profissional? Que nojo!
Ele babujou seu mamilo direito enquanto torneava o esquerdo, prisioneiro entre o polegar, o médio e o indicador. Ela sentiu-se tonta e pareceu escutar a mãe dizendo: “A iniciação sexual deve acontecer quando a pessoa está suficientemente madura e responsável para compreender as suas implicações, só assim é possível desfrutá-la com prazer e sem culpa!”
- Pare! Pare, por favor... Disse ela.
- Tudo bem... Respondeu ele, entre assustado e aborrecido.
Voltaram para a sala, começaram os estudos...
A porta abriu-se e a mãe entrou:
- Oi!
Não houve aula, a mestre teve um problema, comprei pão, querem um cafezinho?

sábado, 31 de julho de 2010

A Foto


Projeto Palavras mil - 21ªEdição
Foto: Olhares

- A Márcia ficou olhando para o lado, vou bater outra! – Gritou.
- Papai, levante um pouco o rosto, olhem para câmera! – Tornou a gritar.
Escutou o ruído de uma composição que se aproximava e mais uma vez gritou, para que pudessem ouvir:
- Vou esperar o trem passar!
Antes que o comboio obstruísse sua visão, pensou ver um vulto de toca ninja aproximando-se dos dois e empunhando algo que lhe pareceu uma arma.
Seria um assalto? Papai entregaria o notebok, já Márcia, com certeza, lutaria por sua bolsa.
Criado apenas pelo pai, com sacrifício, graduara-se em Direito e agora que estava trabalhando, poderia retribuir a dedicação do velho.
Hoje era um dia especial, tinham olhado um apartamento onde os três pretendiam morar juntos. Conhecera Márcia na loja de roupas onde ela trabalhava, apaixonou-se desde o primeiro dia e seu amor por ela só fizera crescer, principalmente quando via a gentileza e carinho que dedicava a seu velho pai.
Não casariam no papel, ainda, acertaram que só o fariam mais tarde, quando suas economias permitissem, mesmo assim, seria ótimo estar com ela todo dia, tê-la comandando a casa, o toque feminino faria do pequeno apartamento um lar... Estava feliz!
O maldito trem pareceu levar uma eternidade para passar, de onde estava, pela fresta entre um vagão e outro, via apenas seu lugar vazio no banco, onde a pouco estivera sentado entre as duas pessoas que mais amava neste mundo.
O medo de perdê-las tomou conta dele.
Quando finalmente o último vagão passou, ele gelou, ficou sem reação e assim permaneceu parado por longos segundos, até que papai bateu palmas e gritou:
- Então, essa foto sai ou não sai?

sábado, 12 de junho de 2010

Palavras Mil 14 ª Edição


Post a foto em seu blog, obrigatoriamente com o link do site
Palavras Mil
não nos responsabilizamos por problemas posteriores;
• Escreva de forma narrativa, descritiva ou dissertativa acerca da foto apresentada.
• Coloque o link de seu texto nesse tópico ou deixe como comentário nesta postagem;
• As notas serão postadas no Photobucket por categoria.
• O prazo vai até sábado (12/06) às 20h, e no domingo sai o resultado com a nova foto/tema.
• A lista dos participantes da semana será apresentada após o término do prazo de entrega.





Nossa participação para essa edição:

        Foto retirada Hi5

Fim de Curso

Passara a manhã quase toda caminhando em busca de um motivo, um objeto, um modelo, uma foto afinal! Faltavam apenas dois dias para a data de entrega do trabalho de conclusão do Curso de Fotografia e ainda não tinha uma foto que respondesse a todas as dicas do mestre; enquadramento, flash necessário, flash desnecessário, cuidados com o fundo, aproveite a luz, experimente...

Sentou, cansado e desanimado, automaticamente começou a analisar o quadro em frente: A rua, os prédios em perspectiva, a riqueza de detalhes das fachadas, as árvores margeando o passeio, a variedade de luzes e sombras. Sua cabeça fervilhava de idéias, mas faltava algo, algo que realmente o motivasse, surpreendesse e respondesse plenamente sua busca.

Ia levantar para continuar a caçada, quando um pequeno automóvel parou bem a sua frente, o motorista saltou e enfiou-se dentro do capô, parecia estar sendo tragado pela boca de um terrível monstro de lata, a porta lateral abriu-se e uma noiva ameaçou descer, mas se conteve com ar aborrecido... Era isso! Ali estava o modelo, o motivo que buscava, que dava àquela esquina comum um momento único, mágico, digno de ser aprisionado para sempre pelo olho de sua objetiva.

Sacou a máquina da bolsa, ajustou-a, apontou e apertou o gatilho... O ruído característico do obturador foi o sinal de alívio. Finalmente tinha sua foto!

Saiu a passos lentos, feliz, perguntando-se: “Quem é maluco de conduzir a própria noiva num carrinho que pifa a qualquer hora”?


domingo, 23 de maio de 2010

Palavras Mil 11ª Edição

                                              Foto retirada do Flickr


• Post a foto em seu blog, obrigatoriamente com o link do site, não nos responsabilizamos por problemas posteriores;
• Escreva de forma narrativa, descritiva ou dissertativa acerca da foto apresentada.
Coloque o link de seu texto nesse tópico ou deixe como comentário nesta postagem;
• As notas serão postadas no Photobucket por categoria.
• O prazo vai até sábado (22/05) às 20h, e no domingo sai o resultado com a nova foto/tema.
• A lista dos participantes da semana será apresentada após o término do prazo de entrega.





Nossa participação nessa edição:





Meninos de rua



- A rua tem coisas boas, a gente é livre pra fazer o que quiser; fumar, cheirar cola, pedir dinheiro no sinal, qualquer coisa... Ninguém se importa!

Também tem coisas ruins, apanhar dos meninos maiores, da polícia, dos traficantes e dos seguranças de boates. Todos batem na gente...

No verão é legal, tem muita gente na rua, sobra bastante comida nos bares e restaurantes, é só encher o bucho e brincar nas noites quentes, tomar banho no chafariz da praça e depois fugir do guarda, se ele nos pega a porrada come, dormir debaixo da marquise...

Já no inverno tem o frio, menos comida na rua, só nos resta aceitar o convite da Lurdinha, a moça da Van da Prefeitura, ela nos leva pra dormir no Albergue. Lá tem banho e sopa quente, mas todos têm medo, não que ela seja ruim, o problema é o Canhão, o vigia, ele é até legal, mas toda noite dá um lanche extra para um menino, leva para o seu quarto e o faz de mulherzinha. No início todos gozavam, chamavam de Biba, Mariazinha, Bixinha... Mas, com o tempo, todos viramos Mariazinha...

Essa noite foi fogo! Os caras de capacete e blusão de couro, atiraram em nós, só deu tempo de pular em cima do Zezinho e sentir o chumbo quente queimando minhas costas.

Olha lá o Zezinho tirando a foto do meu bolso, aquela foto saiu no jornal de ontem, eu sou o do cigarro, o do saco de cola é o Zezinho.

Não podemos levá-lo?

Não, você o salvou... Respondeu o anjo.


PS: Premiado- 3º Lugar



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Amor e Carnaval

Republicação, afinal é carnaval e os contos também gostam de sair por ai...




Abandonou as amigas no saguão e entrou no salão, sentiu o calor, o perfume e alegria que só os bailes de carnaval têm, olhou ao redor, procurando… Não achou, foi tragada pela massa de foliões, e sambou… Sua fantasia salmão misturou-se ao mar de cores, procurando e dançando, lá se foi dando voltas no salão, uma colombina solitária procurando por João.

O tempo passou e uma pergunta começou a incomodá-la, “será que ele não veio?” Ficou apreensiva, nervosa, o baile já não parecia aquela maravilha do início, toda aquela gente, o empurra-empurra, a música alta com muita percursão, os gritos, o cheiro de bebida, um confete impertinente colado no lábio, deu sede, vontade de desistir, ir embora…De repente, a salvação, como numa mágica, ao seu lado estava o Pierrô Branco de Máscara Dourada, tal qual Rosinha descrevera, “branco e máscara dourada”, era João! Fêz uma mímica de “oi” com a mão mexendo os dedos ao lado da cabeça e sorriu com os olhos, ele correspondeu ao seu gesto, segurou em seus ombros e saíram dançando no “trenzinho”.

Rosinha era sua melhor amiga, sabia de seu interesse por João e lhe dera a dica sobre a fantasia dele.

Brincaram pela noite, e beberam, e dançaram, e beijaram, e pularam, a alegria e a paixão tomaram conta de seus corpos e almas, e esqueceram a multidão, a música, a festa…Só haviam os dois, um para o outro…Ele a pegou pela mão e a levou, e ela foi…”Melhor do que eu imaginava!” Pensou.

Acordou meio tonta, meio sonhando, meio querendo acordar, meio querendo dormir... ”Que noite maravilhosa!” Balbuciou, virou na cama e sentado ao seu lado, assistindo seu sono, com um sorriso carinhoso estava Zé!

- Zé !

- Oi, dormiu bem?

Rosinha era sua prima, sabia do seu interesse pela moça e lhe dera a dica sobre a fantasia: Colombina Salmão. Dissera.

- Zé…

- Que foi. Não gostou?

-…Adorei !


Créditos:
Texto e imagem
Dilermartins

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A Outra

A Outra já foi publicado lá no blog na Bel, QUER LER? EU DEIXO!     Contos são como filhos, sempre voltam à casa, assim é justo que também faça sua aparição aqui no ARTeiro.




“Ele trouxe uma menina nova para morar aqui.” Disse Julia, em tom choroso, enquanto acabava de trocar-lhe as fraldas e saía rumo à porta.

- Agora você é a dona da casa. Respondeu com cinismo.

Finalmente teria sua vingança, Julia tomaria seu lugar, não seria mais a mulher só dos lençóis, teria que levantar cedo, cuidar da casa, criar o cardápio, lavar roupas, fazer faxina, administrar os parcos recursos que o marido liberava para as despesas, fazer milagres e ainda ouvir reclamações.

Tinha vivido resignada com seu destino, criara tres filhos, seus dois, mais o de Julia, nunca passou por sua cabeça a idéia de dar um basta, abandonar o marido, a vida que levava, tudo! Não… Isso não era para ela, viera da casa do pai para a do marido, quase como um utensílio, fazia parte daquela casa tanto quanto o fogão, a mesa ou o sofá da sala.

Os três moravam na mesma casa havia já mais de quinze anos, por sugestão do marido acolhera Julia, que tinha sido expulsa da casa dos pais, por estar grávida. Inocente, gostou da idéia, afinal teria companhia e alguém para ajudá-la no serviço da casa, o tempo mostrou-lhe o engano: Era do marido o filho que a Julia esperava! Descoberta a verdade ela jamais voltou a promunciar-lhe o nome; passou a chamá-la simplesmente “Outra”, esse foi seu único protesto, restando-lhe as noites de insônia, sempre que o marido esgueirava-se para o quarto da Outra.

Mais de quinze anos de humilhações e sofrimentos, estavam finalmente acabando, Ela estava para morrer; “os médicos deram alta, pra morrer em casa…Não tem volta…” Escutara o marido falar baixinho com a Outra.

.Fora, sem dúvidas, uma vida miserável, mas era doce a vingança, agora tinha a Outra como governanta, cozinheira, copeira, arrumadeira, faxineira, e ainda enfermeira, limpando sua urina e suas fezes, até esquecia as dores e a morte próxima.

Antes que Júlia passasse pela porta, gritou:

Outra! Vazei de novo!


Créditos:
Imagem e texto:
Dilermartins


Ps: Premiado em  1º Lugar

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Trilha Sonora

Sempre gostou de música, tinha gosto eclético, mas predileção pelo jazz.

Escutava música o tempo todo; estudando, trabalhando, viajando (o som do carro era de causar inveja), caminhando(era desses que usam fones de ouvido enquanto caminham , ), conversando (um som ambiente baixinho, de bom gosto, dizia), namorando e até dormindo.

Costumava apelidar suas namoradas, que eram muitas, com o nome de músicas: Amelias 1 e 2, Trem das Onze, Nervos de Aço, Café da Manhã, Coração Vagabundo, Doida por folia, Ladeira da preguiça, Morena de Angola, Broto Maroto, Garota de Ipanema, Divina Dama, Flor de Liz, Garota do Verão, Mulher Sem Alma, Dadivosa, Burguesinha e muitas outras.

Finalmente aparecera essa que logo recebera a alcunha: Máscara Negra. Havia um mistério em seu olhar, pelo menos ele achava, era uma negra linda, beirava o um metro e oitenta, inteira, do tipo cabeça, tronco e membros; cabelos alisados, soltos e volumosos, peitos e bumba equilibrados e uma leve barriguinha, braços e pernas torneados, coxas grossas.

Foi libido a primeira vista e meses de conquista; olhares, sorrisos, bilhetes, flores, recados, cinemas, jantares até chegar ao final de semana na praia: Sol, céu, mar, água de coco, acarajé, cerveja, caranguejo, rede e cama. Jazz na vitrola, lençóis brancos cheirosos, um feixe de luz do sol entrando furtivo pela fresta da janela e criando penumbra, os lábios doces e os corpos nus, salgados...

E agora: Ela sorria satisfeita com seus dois ou três orgasmos, em ritmo de funk, enquanto lhe dirigia um olhar do tipo  “essas coisas acontecem”...

Ele sentado, a cabeça caída sobre o peito, ilustrando uma sonora brochada!



Imagem by Google

domingo, 29 de novembro de 2009

ARTeiro Premiado !

A Outra, conto de nossa autoria, foi premiado na Festa do 4º Aniversário do blog
Quer Ler eu Deixo, é só clicar na imagem:







Agradecimento: Agradeço a Verinha,
minha leitora nº 1 e principal crítica.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Predadora




Toda vez ela arrastava algum bêbado da boate.
Lauro era escritor, costumava sair para beber e voltar de madrugada para só então, começar a escrever, escrevia até o sol nascer, depois dormia, essa era sua vida; passava parte da noite rondando pelos bares e boates, inspirando-se, a madrugada escrevendo e o dia dormindo.
Havia algum tempo, acompanhava as aparições daquela morena, nas noites de sexta, era alta, cabelos longos, boca vermelha, seios naturalmente fartos, cintura fina, quadris largos, nunca lhe faltavam roupas pretas e os enormes óculos escuros.
Naquela noite ela chegou tarde como sempre, passou sem vê-lo como sempre, dirigiu-se ao bar como sempre. O vestido negro, ajustado até o quadril e solto para baixo, desenhava-lhe as curvas provocantes , o decote generoso e um corte na saia, pelo qual via-se uma das coxas completavam sua figura. E, como sempre, passados alguns minutos, saiu acompanhada de um cambaleante rapaz. Lauro resolveu segui-la!
Saltaram do táxi em frente a um destes prédios de classe média, com quatro andares e sem elevador. Entraram. Ele também deixou o táxi, esgueiro-se pelas sombras e ficou a espreita. As luz de um dos apartamentos do quarto andar acenderam-se, eles dançaram, depois veio a penumbra e finalmente a escuridão e o silêncio. Passadas mais de duas horas, a porta do prédio abriu-se e o rapaz saiu, orientando-se com a bengala branca , subiu no táxi e foi embora.
Ele não era bêbado…Era cego!
Será que eram todos assim?
Neste momento notou que a porta do prédio estava apenas encostada.
Resolveu entrar.
Subiu os quatro andares, lentamente, indeciso, sem saber o que dizer, que desculpa daria, afinal ela não o conhecia.
Atraído pela curiosidade e pelo desejo, continuou, será que ela tinha algum defeito, talvez fosse melhor fingir de cego. Bateu.
A porta abriu-se quase que imediatamente, ali estava ela, óculos escuros e camisola preta transparente, sem sutiã e sem calcinhas, mesmo na contra luz ele pode adivinhar-lhe os mamilos e o farto gramado pubiano.
- Oi!
- Oi
- Entra…
Ela o levou para o quarto, tirou-lhe a roupa, desfez-se da camisola, e deitaram-se…Aquilo não foi sexo, foi transe; ele estava revivendo suas melhores experiências, todas de uma vez, sem que falasse uma palavra, ela satisfazia seus desejos, mesmo os mais íntimos, as fantasias mais secretas, todas foram satisfeitas naquela noite.
Acordou leve, feliz! Olhou-a e pediu:
- Tire os óculos…
- Não!
- Por favor…
- Não posso!
- Por quê? Deixe-me ver seus olhos…
- Não! Não!
Rápido ele arrancou-lhe os óculos e olhou, não sentiu absolutamente nada, os olhos dela eram simplesmente normais, nenhuma deformação, nada! Eram lindos olhos negros, negros e profundos… Escuros…Escuros…
A porta do prédio abriu-se, Lauro saiu com sua bengala branca!

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Amor de carnaval

Imagem Google



Abandonou as amigas no saguão e entrou no salão, sentiu o calor, o perfume e alegria que só os bailes de Carnaval têm, olhou ao redor, procurando… Não achou, foi tragada pela massa de foliões, e sambou…Sua fantasia vermelha misturou-se ao mar de cores, procurando e dançando, lá se foi, dando voltas no salão, uma columbina solitária, procurando por João.
O tempo passou e uma pergunta começou a incomoda-la, “será que ele não veio?” Ficou apreensiva, nervosa, o baile já não parecia aquela maravilha do início, toda aquela gente, o empurra-empurra, a música alta com muita percursão, os gritos, o cheiro de bebida, um confete impertinente colado no lábio, deu sede, vontade de desistir, ir embora…De repente, a salvação, como numa mágica, ao seu lado estava o Pierrô Branco de Máscara Dourada, tal qual Rosinha descrevera, “branco e máscara dourada”, era João! Fez uma mímica de “oi” com a mão mexendo os dedos ao lado da cabeça e sorriu com os olhos, ele correspondeu ao seu gesto, segurou em seus ombros e saíram dançando no “trenzinho”.
Rosinha era sua melhor amiga, sabia de seu interesse por João e lhe dera a dica sobre a fantasia dele.
Brincaram pela noite, e beberam, e dançaram, e beijaram, e pularam, a alegria e a paixão tomaram conta de seus corpos e almas, e esqueceram a multidão, a música, a festa…Só haviam os dois, um para o outro…Ele a pegou pela mão e a levou, e ela foi…”Melhor do que eu imaginava!”
Acordou meio tonta, meio sonhando, meio querendo acordar, meio querendo dormir...”Que noite maravilhosa!”, pensou, virou na cama e sentado ao seu lado, assistindo seu sono, com um sorriso carinhoso estava Zé!
- Zé !
- Oi, dormiu bem?
Rosinha era sua prima, sabia do seu interesse pela moça e lhe dera a dica sobre a fantasia dela.
- Zé …
- Que foi. não gostou?
- …Adorei !

sábado, 14 de fevereiro de 2009

O último encontro


“Vamos ao motel?”
Ele convidou e mais uma vez , ela calou, consentiu, foi…
Esse seria o último encontro, descobrira que ele era casado. Um homem quase irresistível, a voz, o toque, o cheiro, o olhar, a boca, ah, a boca! Já fazia algum tempo, lutava contra ela mesma…A luta da moral e da consciência, contra o instinto, seu instinto enfeitiçado pelas mão e lábios dele. " Isso tinha que parar! Não tinha cabimento, o cara era casado!" Prometia, rezava, pensava positivamente, racionalizava, julgava-se, condenava-se, mas, tudo em vão! Na presença dele, cedia, se deixava levar.
Assim, lá estava ela novamente, sentindo suas roupas serem trocadas por beijos e carinhos, que aceitava quase agradecida, sem constrangimento, com prazer… "Como podia? Aqueles beijos, aqueles carinhos, aquele homem, nada lhe pertencia, eram de outra!"
- Chega! Sei de tudo! Você é casado! - Gritou.
- Calma! Calma…Isso não muda nada entre nós. Respondeu ele, beijando-a repetidas vezes. E continuou, e intensificou, ela calou, se deixou levar pelo prazer que tanto lhe
agradava, daquela vez parecia melhor, “deve ser porque será a última”, pensou.
A cada orgasmo ela pensava, “foi a última …! " Mas ele voltava e ela gostava! “Foi a última…"(com esperança de ganhar mais). E, ganhava! Até que, de repente, ele gemeu e seu corpo caiu pesado sobre a mulher! Não fora o gemido que ela esperava, de prazer, de êxtase, bem ao contrário fora quase um grito, um grito de dor. Assustada reagiu, chamou seu nome, ele não respondeu, olhou seu rosto, estava sem cor, os olhos opacos e no pescoço um hematoma vermelho arroxeado, empurrou o corpo e pulou da cama. Ele estava morto!
- Moço olha a chave do 208, o hospede passou mal, dá para chamar uma ambulância?
Antes que o porteiro tivesse qualquer reação, largou a chave sobre o balcão, saiu para a rua e, de corpo e alma aliviados, gritou:
- Táxi! Táxi!

sábado, 7 de fevereiro de 2009

A degola - Parte Final





Parte Final (Leia antes a Parte I)

Honófre nem de longe poderia ser comparado ao famoso Adão Latorre, maragato, que segundo consta, em 23 de Novembro de 1893 degola 300 Pica-paus prisioneiros, às margens do Rio Negro, no local que ficou conhecido como Potreiro das Almas, na cercania de Bagé. Tão pouco haveria de se comparar ao não menos famoso Cherengue, pica-pau, que em 5 de Abril do ano seguinte, no Combate do Boi Preto, degola 250 maragatos, em represália ao acontecido no Rio Negro. Não tinha fama e tão pouco queria, mas de fato todo maragato que ganhava a gravata colorada para bandas da fazenda do capitão Julião, certamente era pelas mão dele, Honófre.
A noite de Zefa foi de insônia, as vozes das lavadeiras ecoavam na penumbra do quarto e povoavam sua mente, o medo tomara seu corpo, suas carnes tremiam, alma horrorizada, não dormia, não rezava, apenas pensava .
Dormira ao lado do carniceiro, assassino, por tantos anos, mas na inocência, agora que sabia, provara do fruto proibido, estava condenada, era impossível pregar olho, e se ele adivinhasse seus pensamentos? E se alguma das mulheres comentasse sobre os relatos feitos a beira do rio? E se Honófre resolvesse fazer com ela o mesmo que fazia com os maragatos. Definitivamente, era impossível dormir ao lado da fera.
Deixou a cama, delicadamente para não correr o risco de acordar o marido, esgueirou-se pelo quarto escuro, pegou uma manta e cobrindo-se com ela, saiu furtivamente da casa, passou por um pequeno pátio e entrou na cozinha, construída separada do restante por causa do risco de incêndios.
Fez fogo, aqueceu água, preparou o chimarrão. Não se acalmou.
Sorveu o chimarrão em silêncio, madruagada a dentro, enquanto em seu diálogo íntimo, discutia, brigava, questionava, o que fazer? “ – Não sei, não sei !” Pensava…
“ - Matar em batalha, frente a frente, com arma branca era sinal de coragem, bravura, já a arma de fogo demostrava mais medo do que outra coisa, mas tudo bem era uma guerra, desde que não fosse pelas costas, pois isso seria covardia…Agora degolar o vivente amarrado de pés e mãos como se fosse um bicho, era selvageria! O que fazer?” Pensava….
Zefa fechava os olhos e imaginava o marido pegando alguém pelos cabelos e puxando a cabeça pra trás, oferecendo o pescoço à faca afiada, o sangue, o grunhido e a morte. “ - Demônio ! O que fazer? ” Pensava…
Largou o chimarrão sobre a mesa, levantou, suspirou profundamente e entrou na casa da mesma forma como saíra.
Amanheceu. A mulher de pé junto a cama, imóvel, rígida, como uma estátua, os braços caídos ao longo do corpo, a pele cinza da noite sem dormir, o olhar distante dos abandonados pela razão e perdidos do espírito.
No chão, a seus pés, jazia ensanguentada, a pequena faca, feita de meia tesoura de tosquiar, com cabo de rabo de tatu.
Na cama o marido morto, não com a gravata colorada, que essa era reservada aos heróis, mártires daquela triste guerra, tinha apenas com um pequeno corte…Um pequeno corte na jugular.

sábado, 31 de janeiro de 2009

A degola - Parte I

Imagem DilerMartins

Parte I

A prática da degola de prisioneiros não foi rara entre os contendores na Revolução Federalista de 1893, no Sul do Brasil. Do ponto de vista militar a degola foi a forma encontrada para encarar o fato de que as forças em combate não tinham meios para manter prisioneiros, devido ao estado de penúria de ambos os lados, era um maneira rápida de execução e poupava a escassa munição. Há que se ter presente a natureza dos homens que lutaram nesta guerra; indivíduos rudes, acostumados a vida no campo, a caça e ao abate de animais, o que, é claro, não justifica a selvageria.
De um lado os maragatos, partidários de Gaspar Silveira Martins, comandados por João Nunes da Silva Tavares, o Joca Tavares, e pelo coronel caudilho Gumercindo Saraiva, defendiam a revisão constitucional, o sistema parlamentarista e o fortalecimento do Brasil como União Federativa. Em confronto, os Pica-paus, partidários de Júlio de Castilho que defendia o sistema presidencialista e os princípios camtiano positivista de “pequenas pátrias”, que inspirara a constituição Rio-grandense de 1891.
Maragatos e Pica-paus, apelidos pejorativos trocados pelas facções: O apelido Pica-pau veio das listas brancas nos chapéus usados pelos militares que apoiavam Júlio de Castilho, que segundo os revolucionários, assemelhavam-se a um tipo de pica-pau existente no sul do Brasil. Já o apelido Maragato tentava fazer uma ligação dos revolucionários, com um povo, segundo alguns, de pouco valor, vagabundos, denominados Maragatos que viviam na da localidade de Maragateria, na Espanha, e que seriam os colonizadores do local, no Uruguai , de onde partira o piquete de Gumercindo Saraiva.
Zefa sabia que o marido Honófre, era homem da confiança do Capitão Julião e que sempre o acompanhava nas escaramuças naquela maldita guerra de guerrilhas, saiam por dois três dias, uma semana no máximo, e voltavam.
Honófre vinha com o olhar distante, enfastiado, calado, cansado, parecia até doente. “ - Deve ser pelos horrores da guerra.” Pensava Zefa … Depois voltava ao normal, mas não fazia nenhum comentário sobre o que se passava. A vida corria como antes, até a próxima saída, cada um ocupava-se de suas rotinas, não fosse pelos cavalos sempre ensilhados e pelos esconderijos preparados para as mulheres e crianças, nem pareceria que havia um guerra em andamento, tinha-se a sensação de eram várias guerras, que volta e meia, uma vinha quebrava seu sossego cotidiano e lá se iam os homens novamente. Depois voltavam e voltava o silêncio do marido.
Não fosse pela língua das lavadeiras ela jamais saberia da morte de alguns desafetos do capitão, tão pouco perceberia que não haviam prisioneiros, mas afinal o capitão era gente do governo, grande proprietário e naquelas redondezas todos lhe deviam obediência e respeito.
Naquele dia, enquanto voltava do rio com a roupa lavada, Zefa sentia as pernas frouxas, por várias vezes pensou que cairia, as revelações desta manhã tinham sido terríveis: As outras mulheres, contaram-lhe que cada piquete, além do comandante e dos peões transformados em soldados, também tinha um carrasco, que os prisioneiros eram executados ajoelhados, de mãos e pés amarados, tendo a cabeça puxada para trás, eram degolados de orelha a orelha. – Colocam a gravata colorada nos maragatos. Disse uma enquanto ria. - Os que tentam fugir são castrados antes de receberem a colorada. Falou outra. – Dizem que até fazem corrida de degolados. Informou uma terceira.
Finalmente Almira abriu sua maldita boca desdentada e falou : - Não se preocupe Zefa, ficaras bem, afinal o teu marido é o degolador no piquete do capitão!
Continua...

domingo, 17 de agosto de 2008

O Agregado




O Agregado




Parte I


Tertuliano era seu nome, mas todos o tratavam de Tete, por causa da gagueira. Agregado dos SanMartin, se tinha como filho.
Seu pai, o mulato Acácio, quando ria mostrava um enorme dente folhado a ouro em meio aos demais extremamente brancos, as raparigas do lugar alvoroçavam-se ao vê-lo, mas em seguida gelavam; seu olhar era cinzento e opaco como o de um animal abatido e aquele seu sorriso sempre terminava com um leve avançar do maxilar, forçando a arcada inferior à frete da superior, parecendo dizer: ¬Posso morder... Era peão e tropeiro, homem de confiança da Fazenda Figueira Nova, propriedade de Don Horácio San Martin.
A Figueira Nova correspondia a dois terços da antiga Fazenda Figueira, propriedade de 24 mil hectares pertencente ao Comendador Fausto Barros, e fora herdada por Dona Sônia, mulher de Don Horácio.
Acácio deixara Tete, quando este mal tinha completado três anos, aos cuidados de Domingas, a negra velha, cozinheira da casa dos patrões. Era um fim de tarde chuvoso e gelado. ele ganhara o mundo atrás de Dolores a mãe de Tete. Alguns diziam que Dolores fugira com Elias, o mascate, e que este seria seu amante há muito tempo, outros defendiam-na argumentando que apenas pegara carona com Elias; o verdadeiro motivo da fuga seriam os maus tratos sofridos do marido: Acácio costuma espancá-la por qualquer motivo, não se podia nem botar a culpa na bebida, que ele não tinha esse vício. Ria com seu dentão de ouro enquanto metia-lhe a mão na cara, com força na cozinha, se comida não estava do seu agrado ou de leve, mas machucando, na cama, enquanto faziam amor, assim, diariamente Dolores apanhava, diziam.
De fato, não sabendo o verdadeiro motivo da fuga, muitos se davam o direito de imaginá-lo...O caso é que, passados quase vinte anos, nenhum dos três jamais voltara...Nem o enigmático Acácio, nem o atrapalhado Elias e tão pouco, a bela Dolores.





Parte II

A bugre que aparecera na Figueira Nova em busca de trabalho, fora contratada como copeira na casa dos patrões. Tinha cabelos negros e lisos batendo-lhe na cintura, os olhos ao mesmo tempo que redondos e grandes, pareciam puxados, eram negros, profundos e brilhantes e mostravam curiosidade e interesse pela vida, nada lhes escapava. Nariz fino, boca carnuda e delicada, pescoço curto, ombros largos, seios pequenos, cintura fina, quadris arredondados, que ela balançava com graça enquanto andava, coxas grossas e pernas bem torneadas, tinha mãos e pés tão pequenos que mais parecia tê-los tomados emprestados de alguma adolescente descuidada, tudo coberto pela pele lisa, morena e cheirosa. Logo ganhara as graças dos homens e a inveja das mulheres, que a chamavam “A Diabinha”. As mais corajosas chegavam a dizer que até Don Horácio lançava-lhe olhar desejoso.O falatório parara quando Dolores amasiara-se com Acácio, para felicidade das mulheres da fazenda que agora a tratavam Dona Dolores e admiravam a sua coragem por “aturar aquele cachorro ”.O romance entre Acácio e Dolores era um mistério, ela desejada por todos os solteiros e até alguns casados da fazenda e redondezas, escolhera ficar com o esquisito mulato do dentão de ouro. Ele, por outro lado, sabidamente apaixonado por Madalena, uma das meninas de Dona Kiki, por quem até já se entreverara numa briga de adagas contra o negro Amâncio, que só não terminara em morte graças a intervenção de Idálmo, um dos filhos de Don Horácio, de repente levara Dolores para seu rancho. Logo apareceu a razão; Dolores estava grávida e agora era mantida em casa, saindo apenas raramente e na companhia de Acácio. Ele, por outro lado, levava a mesma vidinha de sempre; juntava-se com a rapaziada para jogar e visitar a pensão da Dona Kiki, continuava inclusive o caso com Madalena, a quem ele chamava carinhosamente de Mada, varava as madrugadas e até amanhecia na farra, por pouca coisa brigava e a adaga já se mostrava. Do trio, jogo, mulher e cachaça, se mantinha afastado apenas desta última, o povo falava: “– Isso que esse diabo toma apenas refresco, imagina se bebesse pinga! Mas, é desse jeito porque Don Horácio acoberta a safadeza desse Dentão.” Diziam. “- Esse maldito deve ter sido pistoleiro do patrão em outras épocas...” Pensavam.Por ocasião do nascimento de Tête, Acácio estava tropeando e foi Don Horácio quem levou Domingas para fazer o parto. - Com esse são trinta e três que eu aparo, vinte e uma meninas e doze meninos. Disse Domingas ao colocar Tête no peito da Bugre. Assim, o patrão se tornou padrinho do menino, na verdade nunca chegou a batizá-lo de fato, pois Dona Sónia não aprovava toda aquela afeição à Bugre e seu amasio. Don Horácio até sugeriu o nome; Tertuliano, uma homenagem a seu avô paterno, fato que irritou de vez a fazendeira que passou a nutrir verdadeira aversão, quase ódio, a tudo que se referisse a Dolores.Felizes, as fofoqueiras, embora estranhando a maneira como Acácio tratava sua Bugre, nada comentavam; era melhor assim, do que tê-la solta por ai rebolando as ancas e provocando maridos e namorados!










Parte III
As primeiras luzes da aurora começavam a brilhar lá fora, dentro do salão, que ia aos poucos, sendo invadido pelos raios de sol, a penumbra dava lugar a uma luminosidade intermediária, onde a poeira, da qual antes se sentia apenas o cheio, podia ser vista levantando do chão batido, se misturado à fuligem dos candeeiros, por entre os casais que bailavam cansados. Como sempre nos finais de bailes daquelas redondezas, as moças sendo poucas, já estavam cada uma com seu par, mesmo as muito feias acabavam de mãos dadas com algum corajoso! Dos rapazes restantes, os que não estavam bêbados pelos cantos, arriscavam dançar uns com os outros em passos desajeitados, sob o olhar de preocupada censura, do proprietário do salão e o riso contido das velhas sonolentas.Tete puxava cansado, o fole da gaita ponto, enquanto Bronze, o percussionista, descia o braço com força no bumbo, como se o baile acabasse de começar. Bidu e Magal, os irmãos violeiros, não tinham tanta vitalidade quanto Bronze, mas estavam firmes fazendo o acompanhamento. Mesmo que o violão de Bidu estivesse sem a corda mi desde o primeiro intervalo, o povo não notava algum acorde dissonante, pra eles o importante era a melodia da gaita ponto e principalmente a marcação do bumbo! Os bailes tocados por Tete e suas turma costumavam ser muito animados, a música brotava de sua gaita como mágica, seus dedos ágeis, pulavam pelos botões, encantando a todos, enquanto os braços fortes puxavam o fole com vigor. E volta e meia Tete gritava: Vamos dançar pessoal, que essa é das boas! E a noite ainda vai longe... Olha a marcação! Vamos dançar! Vamos Dançar! Muito bem! Muito bem! O pessoal adorava festas com a música e a alegria de Tete. Ele era ótimo músico, aprendera de ouvido, com seu padrinho Don Horácio, que o presenteara com a gaita, quando ainda era menino. Mas essa não tinha sido uma boa noite; Tete parecia cansado, quase não gritara e quando o fizera fora sem a alegria costumeira... Parecia triste...Ausente...Teria brigado com Margarida? A filha caçula dos Soares, sua namorada. Ela não estava no baile...Todos conheciam o gênio da moça e também que preferia que Tete ganhasse a vida de outra forma.De repente Tete entendeu aquela sensação de aperto que sentira durante toda à noite, a melancolia, a tristeza, aquela espécie de medo, a intuição de que algo ruim estava pra acontecer...Alguém entrou no salão e gritou: Don Horácio morreu! Don Horácio morreu!






Parte IV

Tete acomodou a gaita ponto na garupa do cavalo, montou e saiu a passo lento, às vezes troteava, mas voltava para o passo, que morte não tem pressa...E assim, foi por todo o trajeto, lentamente, contado suas perdas: Primeiro foram os pais, desaparecidos numa louca aventura, a qual nunca entendera muito bem. Deles restara, além daquele grande vazio, apenas alguns poucos objetos que Domingas juntara no rancho de Acácio. Ah! Domingas! Se fora havia alguns anos, aquela que tinha sido sua verdadeira mãe. Com ela partiram também todo o carinho, a dedicação, os conselhos, o incentivo, a preocupação, os bolos, a comida cheirosa, o café quente, em fim o verdadeiro amor...Que saudades! Até Dona Sônia, por quem não nutria grande simpatia; ela sempre o tratara com distancia e frieza, lhe veio à lembrança, que morte horrível! Lamentou.E agora o padrinho...As lembranças de Don Horácio brotavam em seu pensamento: Ensinara-lhe a ler e escrever, a calcular, que dificuldade tivera com contas! Mas o padrinho, sempre com paciência e carinho acabava por conseguir que aprendesse. E a História, tão importante para entendermos esse mundo! A Geografia! A Filosofia! E a poesia, adorava poesia! Até se arriscava a compor alguns versos. A biblioteca da fazenda era bem provida, e graças a bondade e amor de Don Horácio, teve acesso a ela. Era um rapaz com educação muito acima dos demais que habitavam a fazenda, podia-se dizer que nem os filhos da Don Horácio tinham uma cultura tão ampla e sedimentada quanto à dele.Foi também com Don Horácio, que Tete aprendeu a lida campeira, quase que diariamente, acompanhava o padrinho em sua ronda pela fazenda, lidava com o rebanho como poucos; cavalgava e laçava com exímia destreza. Enquanto o peso lhe permitiu foi o jóquei dos parelheiros da fazenda. Adorava quando ganhava uma carreira e a gauchada gritava: “ É “ bueno” esse guri do Don Horácio”!E a gaita ponto! Que dia feliz aquele no qual o padrinho chegou com a caixa e mandou que a abrisse. Era linda! Brilhava! Seguiram-se dias de muito esforço pra domar a bichinha, afinava o ouvido, exercitava os dedos e fazia força com fole...Até que passado quase um mês, o Don finalmente aplaudiu! - É isso mesmo! É isso mesmo! Gritara enquanto o abraçava carinhosamente. Tocara sua primeira música.Sem o padrinho, estava só...Restava-lhe apenas Margarida. Ia atender-lhe o pedido; largar a vida de músico e dedicar-se a outro trabalho. Casar, ter filhos, iniciar uma nova vida! Era isso que faria!Chegando a fazenda soube dos detalhes da morte de Don Horácio: “O patrão reuniu todos os filhos na biblioteca, após o almoço. O assunto era grave, podia-se ouvir os gritos...De repente passou mal. Chamaram o médico mas nada adiantou. Ele morreu antes da chegada do doutor!” Contou-lhe um empregado da casa.Tertuliano entrou na sala onde estava sendo velado o corpo do patrão. Dirigiu-se até o caixão, benzeu-se e fez uma oração. Sentiu a alma pesada, o coração apertado, o estômago embrulhado, era mais uma sensação do que um sentimento; algo físico que ia além da dor da perda.Ao levantar a cabeça percebeu o olhar de reprovação dos “irmãos”, até Idálmo, o mais velho, que sempre lhe parecera tão amigo, agora baixava o olhar.Pareciam dizer:“Aqui não é seu lugar! Fora Agregado!”







Parte V - Final


Terminado o enterro, quando todos se retiraram, Tete, que se mantivera à margem, ajoelhou-se em frente ao túmulo rezou e chorou. Em meio ao pranto ouviu passos que se aproximavam lentamente, alguém veio ajoelhar-se a seu lado. Olhou, era uma mulher de meia idade, quarenta e poucos diria, mesmo que mal pudesse ver-lhe o rosto, coberto pelo véu. Vestia preto, dos pés a cabeça, e nas mãos, desproporcionalmente pequenas, carregava um rosário de pérolas brancas.Terminada a oração ele levantou e saiu, imitado pela estranha, que o acompanhou em silêncio, caminharam pela alameda principal até um pequeno jardim que ficava na entrada do cemitério, ela parou, retirou o véu, olhou-o profundamente e convidou, vamos sentar ali, apontando um banco a sombra de um salgueiro. Agora, sem o véu, ele pode reparar que as marcas de tristeza e sofrimento que ela trazia no rosto, não conseguiam apagar totalmente os traços da beleza que tivera no passado. Sentaram-se, Tete sentia no peito o coração descompassado, mas sua alma estava leve, a perda do padrinho não o castigava naquele momento, era um sentimento duplo; se a razão o colocava em alerta diante do mistério daquela mulher, a intuição o tranquilizava com a certeza de que nenhum mal lhe aconteceria, era como se estivesse sentado na varanda da própria casa, mas com os olhos vendados.Com a mãozinha tremula ela estendeu-lhe um envelope e disse com voz embargada: - Há dez dias recebi esta carta de Don Horácio, pedindo para encontra-lo hoje na Fazenda.Tertuliano abriu o envelope lentamente e reconhecendo a caligrafia do padrinho, leu:“Querida Dolores,É chegada a hora de revelar a verdade a todas as pessoas.Quero que estejas aqui no domingo dia 10, pela manhã, para finalmente encontrar e abraçar teu filho.No sábado, reunirei meus herdeiros para contar-lhes a história.Contarei como paguei Acácio para que fosses morar no rancho dele, quando estavas grávida, como depois, cedendo as pressões de Sônia, pedi para que Elias te levasse pra capital. Contarei também, que Acácio chegou mais cedo naquela trágica tarde, e sem saber que Elias prestava-me um favor, seguiu vocês, que eu tambem os segui mas cheguei tarde; Elias, para defender-se matara Acácio. Reconhecendo que fora legítima defesas, mandei que continuasse a viagem e enterrei meu querido amigo a beira da estrada.Revelarei o nosso amor, esse amor sofrido, sem futuro, sem direitos, condenado as sombras… Mas que sobreviveu ao tempo e a distância!



Finalmente, anunciarei que Tertuliano é nosso filho. Meu filho!



Quero reconhece-lo como meu legítimo herdeiro !



Do teu, Don”

Fim